quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Quatro olhos.

Minha visao nunca foi das melhores. Claro, antes minha cegueira não era tao crônica, até pouco tempo atrás eu ainda conseguia distinguir entre um ser humano e um manequim de loja sem que fosse necessário utilizar óculos ou passar vergonha perguntando “que horas são?” para um boneco.

Mas o grande problema de quem usa óculos não é o fato de não enxergar perfeitamente. É o fato de que 99% das pessoas que precisam das preciosas lentes simplesmente se acham feias com elas. Eu não julgo. Entendo perfeitamente o drama. Na nossa cabeca, de alguma forma, acontece uma transformação na aparência quando colocamos o óculos, algo mais ou menos assim:


E por conta disso já passei por incontáveis casos em que decidi sair na rua sem óculos e acabei cumprimentando gente que não era pra cumprimentar ou então respondendo “tchauzinho” que não era pra responder. Já entrei em  carro de alguém desconhecido achando que era o da minha mae, já me aproximei para falar com uma pessoa que julgava conhecer e tive que tirar o celular do bolso de última hora e fingir uma ligação inexistente para não parecer tao louco (nunca deu certo) e já cumprimentei pessoas de longe para em seguida virar para alguém que tava comigo e perguntar: Quem era?

Mas nenhum desses casos foi tao desesperador quanto o que vou relatar para vocês a partir de agora.

Era junho de 2009. Naquele ano o dia dos namorados caiu exatamente em um sábado para alegria dos casais e depressão dos solteiros. E como de costume a Igreja da qual faco parte decidiu fazer uma programação especial, dessas para envolver os dois grupos. O problema desse tipo de programação é que sempre sobra pros solteiros da ocasião terem de fazer alguma coisa para “desencalhar” como se o fato de estar solteiro fosse algo proibido pelos dez mandamentos.

E a brincadeira da vez era: eles chamavam um rapaz solteiro para a frente, entregavam uma flor pra ele e mandavam ele escolher alguma garota que estivesse sentada entre a galera para entregar a rosa e fazer uma declaração qualquer. E se voce fosse selecionado para ir na frente só tinha duas opções: ou ia ou então simulava um ataque cardíaco e esperava que o tumulto te desse uma oportunidade de escapar. Em um certo momento acabaram me escolhendo e eu infelizmente escolhi a primeira opção.

A mao tremia, a voz não aparecia e o tempo corria. Eu estava na frente de uns 80 adolescentes, segurando um microfone em uma mao, uma rosa na outra, e sem nenhum óculos no rosto. Tentei procurar alguma menina de quem fosse muito amigo para assim poder entregar a flor sem que aquilo se tornasse em algo muito mais constrangedor depois. Olhei bem e percebi uma garota que conhecia sentada bem no meio do salao.

 Não tive dúvida, me aproximei dela, me ajoelhei, entreguei a rosa e fiquei esperando pelas piadas dos apresentadores da noite. Silencio geral. A menina me olhava pálida, as pessoas ao redor ficaram sem reação e eu só fui entender o que estava acontecendo quando olhei pro lado e percebi....que ela estava sentada com um garoto que era o seu namorado. Droga eu tinha me esquecido totalmente de que ela tinha namorado e não tinha enxergado quem tava sentado do lado dela.

Eu me levantei rápido e no desespero entreguei a rosa para uma outra garota que estava sentada do lado dela. Voltei pro meu lugar, me sentei e fiquei imóvel pelo resto da noite. No dia seguinte eu liguei pra menina pra pedir desculpas e explicar o que aconteceu. Ela disse que tudo bem, o namorado dela era um cara tranquilo e tinha achado ate que engraçada a situação. Quanto a ela eu não deveria me preocupar, me entendia perfeitamente.

Ela também usava óculos.




Um comentário:

  1. Talvez ainda seja pior quando se paga mico vendo.

    Já abracei um cara por trás, no supermercado, achando que era o meu pai! =x

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